O QUE É FÍSICA QUÂNTICA?
Já faz cem
anos que Planck teve de lançar mão de uma expressão
inusitada para explicar os seus resultados da medida da intensidade
da radiação emitida por um radiador ideal - o corpo
negro - levando-o assim a estabelecer o valor de uma nova constante
universal que ficou conhecida como a constante de Planck. A partir
daí, e também em função de outras experiências
que apresentavam resultados igualmente surpreendentes no contexto
da mecânica de Newton e do eletromagnetismo de Maxwell, os pesquisadores
do começo do século passado se viram obrigados a formular
hipóteses revolucionárias que culminaram com a elaboração
de uma nova física capaz de descrever os estranhos fenômenos
que ocorriam na escala atômica, a mecânica quântica.
Essa teoria, com
a sua nova conceituação sobre a matéria e os
seus intrigantes postulados, gerou debates não só no
âmbito das ciências exatas, mas também no da filosofia,
provocando assim uma grande revolução intelectual no
século XX. Além das discussões sérias
e conceitualmente sólidas, as características não
cotidianas dos fenômenos quânticos levaram muitos pesquisadores,
e também leigos, a formular interpretações equivocadas
da nova teoria, o que, ainda nos nossos dias, atrai a atenção
das pessoas menos informadas.
Afinal,
o que é a mecânica quântica?
A mecânica
quântica é a teoria que descreve o comportamento da matéria
na escala do "muito pequeno", ou seja, é a física
dos componentes da matéria; átomos, moléculas
e núcleos, que por sua vez são compostos pelas partículas
elementares. O que isto nos traz de novo?
O primeiro conceito
é o de partícula. Para
nós este termo significa um objeto que possui massa e é
extremamente pequeno, como uma minúscula
bolinha de gude. Podemos imaginar que os corpos grandes sejam compostos
de um número imenso destas partículas. Este é
um conceito com o qual estamos bem acostumados porque lidamos diariamente
com objetos dotados de massa e que ocupam uma certa região
do espaço.
O
segundo conceito é o de onda.
Um exemplo bem simples do movimento ondulatório é o
das oscilações da superfície da água de
uma piscina. Se mexermos sistematicamente a nossa mão sobre
esta superfície, observaremos uma ondulação se
afastando, igualmente em todas as direções, do ponto
onde a superfície foi perturbada.
O caso particular
aqui mencionado é o de onda material, ou seja, aquela que precisa
de um meio material para se propagar (a água da piscina no
nosso caso). Esse não é o caso geral. Há ondas
que não precisam de meios materiais para a sua propagação,
como é o caso da radiação eletromagnética.
Aqui, a energia emitida por cargas elétricas aceleradas se
propaga no espaço vazio (o vácuo) como as ondas na superfície
da piscina.
A radiação
eletromagnética está também presente na nossa
experiência diária. Dependendo da sua freqüência
ela é conhecida como: onda de rádio, FM, radiação
infravermelha, luz visível, raios-X e muito mais.
Até o final
do século XIX tudo o que era partícula tinha o seu movimento
descrito pela mecânica newtoniana enquanto que a radiação
eletromagnética era descrita pelas equações de
Maxwell do eletromagnetismo.
O que ocorreu no
primeiro quarto do século XX foi que um determinado conjunto
de experiências apresentou resultados conflitantes com essa
distinção entre os comportamentos de onda
e de partícula. Estes resultados
podem ser resumidos em uma única experiência que passamos
a descrever, em seguida, na sua versão clássica.
Imagine que uma
onda, material ou não, incida sobre um anteparo opaco onde
haja duas fendas (ver figura abaixo). Cada uma das fendas passa então
a ser fonte de um novo movimento ondulatório.
uma característica fundamental deste movimento é o fenômeno
de interferência, que reflete
o fato das oscilações provenientes de cada uma das fendas
poderem ser somadas ou subtraídas uma da outra.
Colocando-se agora
um segundo anteparo, distante do primeiro, onde iremos detectar a
intensidade da onda que o atinge, observaremos como resultado uma
figura que alterna franjas com máximos e mínimos da
intensidade da onda. Esta é a chamada figura de interferência.
 |
|
| a) arranjo experimental |
b) visão frontal
do segundo anteparo |
Vamos agora repetir
a mesma experiência com a diferença que, ao invés
de ondas, incidimos partículas sobre o primeiro anteparo. O
que ocorre nesta nova situação é a presença
de duas concentrações distintas de partículas
atingindo o segundo anteparo. Aquelas que passam por uma ou outra
fenda, como mostra a figura abaixo.

Este seria, portanto,
o resultado esperado pela física clássica. Entretanto,
quando esta experiência é feita com partículas
como elétrons ou nêutrons, ocorre o inesperado: forma-se,
no segundo anteparo, uma figura de interferência na concentração
de partículas que a atingem, como mostramos em seguida.

Ainda mais estranha
é a repetição desta mesma experiência com
apenas uma partícula. Ela
passa pelo primeiro anteparo e atinge o segundo em apenas um ponto.
Vamos, então, repetir esta mesma experiência um número
enorme de vezes. O resultado é que em cada experimento o ponto
de detecção no segundo anteparo é diferente.
Entretanto, sobrepondo todos os resultados obtidos nos segundos anteparos
de cada experiência obtém-se, novamente, a mesma figura
de interferência da figura anterior!
Assim, mesmo falando
de apenas uma partícula, nos vemos obrigados a associá-la
a uma onda para que possamos dar conta da característica ondulatória
presente no nosso exemplo. Por outro lado, devemos relacionar esta
onda à probabilidade de se encontrar a partícula em
um determinado ponto do espaço para podermos entender os resultados
de uma única experiência de apenas uma partícula.
Este é o chamado princípio da dualidade onda-partícula.
Um outro fato intrigante
ocorre quando tentamos determinar por qual fenda a partícula
passou. Para resolver esta questão podemos proceder fechando
uma das fendas para ter certeza que ela passou pela outra fenda. Outra
surpresa: a figura de interferência é destruída
dando lugar a apenas uma concentração bem localizada
de partículas, a daquelas que passaram pela fenda aberta. Portanto,
ao montarmos um experimento que evidencia o caráter corpuscular
da matéria, destruímos completamente o seu caráter
ondulatório, ou seja, o oposto ao caso com as duas fendas abertas.
Este é o princípio da complementaridade.
De uma forma geral
podemos interpretar os resultados do experimento aqui descrito como
os de um sistema sujeito a uma montagem na qual o seu comportamento
depende de alternativas A e B (no nosso caso, a passagem da partícula
por uma das fendas). Enquanto que na mecânica clássica
o sistema escolhe A ou B, aleatoriamente, na mecânica quântica
estas duas alternativas interferem. Entretanto, ao questionarmos,
ou melhor, medirmos, por qual alternativa o sistema opta, obteremos
o resultado clássico. 
Bem aqui é
o seguinte:
Um sistema quântico,
ao contrário do clássico, só pode ser descrito
através das possíveis alternativas (não necessariamente
apenas duas) que a nossa montagem apresente para ele. A onda associada
ao sistema carrega a possibilidade de interferência entre as
diferentes alternativas e é a informação máxima
que podemos ter sobre o sistema em questão.
A aplicação
desta teoria a problemas nas escalas atômicas e sub-atômicas
apresenta resultados como a quantização da energia ou
o tunelamento quântico que, por si só, já mereceriam
a elaboração de um outro artigo para que o leitor pudesse
apreciá-los.
O mais interessante
é que a mecânica quântica descreve, com sucesso,
o comportamento da matéria desde altíssimas energias
(física das partículas elementares) até a escala
de energia das reações químicas ou ainda de sistemas
biológicos. O comportamento termodinâmico dos corpos
macroscópicos, em determinadas condições, requer
também o uso da mecânica quântica.
A questão
que nos resta é então: Por que não observamos
estes fenômenos no nosso cotidiano, ou seja, com objetos macroscópicos?
Há duas razões para isso. A primeira é que a
constante de Planck é extremamente pequena comparada com as
grandezas macroscópicas que têm a sua mesma dimensão.
Baseados neste
fato, podemos inferir que os efeitos devidos ao seu valor não
nulo ficarão cada vez mais imperceptíveis à medida
que aumentamos o tamanho dos sistemas. Em segundo lugar, há
o chamado efeito de descoerência. Este efeito só recentemente
começou a ser estudado e trata do fato de não podermos
separar um corpo macroscópico do meio onde ele se encontra.
Assim, o meio terá uma influência decisiva na dinâmica
do sistema fazendo com que as condições necessárias
para a manutenção dos efeitos quânticos desapareçam
em uma escala de tempo extremamente curta.
Entretanto,
as novas tecnologias de manipulação dos sistemas físicos
nas escalas micro ou até mesmo nanoscópicas
nos permitem fabricar dispositivos que apresentam efeitos quânticos
envolvendo, coletivamente, um enorme número de partículas.
Nestes sistemas a descoerência, apesar de ainda existir, tem
a sua influência um pouco reduzida, o que nos permite observar
os efeitos quânticos durante algum tempo.
Uma aplicação
importante para alguns destes dispositivos seria a construção
de processadores quânticos, o que tornaria os nossos computadores
ainda mais rápidos. A minimização dos efeitos
da descoerência é altamente desejável, pois, em
caso contrário, estes processadores de nada iriam diferir dos
processadores clássicos.
Conclusão:
A mecânica
quântica não apresentou qualquer falha desde que foi
elaborada na década de 20, o que não nos proporciona
evidência experimental que a aponte para onde buscar as questões
capazes de derrubá-la.
A mecânica
quântica, como uma teoria científica, tem sido muito
bem sucedida em prever resultados experimentais. Isto significa, primeiro,
que há uma correspondência bem definida entre os elementos
do formalismo (matemático, abstrato)
e os procedimentos experimentais e, em segundo lugar, que os resultado
obtidos nestes experimentos estão extremamente de acordo com
o formalismo.
Como podemos ver,
tudo indica que a mecânica quântica seja a teoria correta
para descrever os fenômenos físicos em qualquer escala
de energia.
Além disso,
sem a mecânica quântica não conheceríamos
inúmeros objetos com os quais lidamos corriqueiramente hoje
em dia. Só para se ter uma idéia podemos mencionar o
aparelho de CD, o controle remoto, os aparelhos de ressonância
magnética em hospitais ou até mesmo o micro-computador.
Todos os dispositivos eletrônicos usados nos equipamentos da
chamada high-tech só puderam ser projetados porque conhecemos
a mecânica quântica.